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memorias improváveis

 
 

Memórias improváveis

"Olhei as árvores como quem interroga testemunhas mudas."1
Sentada na beira do degrau observo o espaço.  A árvore morta descansa. Ramos sem folhas nem raiz.  Retângulo. Muro corroído pelo tempo. Chão coberto de grama recém cortada. Corredor entregue a solidão do vazio.  Entreguei-me aquele retrato e passei a me perguntar o que de mim havia ali. Não demorou até que eu fosse absorvida pelo espaço.  Cores sombrias.  Passado. Morte? Vida? Passei a separar os ramos e galhos das árvores.  Lembrei-me que as árvores na minha família iam se multiplicando. De muda em muda, de uma casa a outra.  Memória.  Assim me pergunto - de onde vem a memória? Onde ela mora?  Tudo permanece vivo.  Reorganizo os galhos como quem arruma a própria casa. Aconchegando cada coisa em seu lugar.   Olho de novo e percebo o quanto reorganizar os galhos e troncos me transformou.  Seres mortos. Cavidade em transição. De vazia a cheia.  De nada a tudo. O efêmero.   A parede manchada e rachada.  Tijolo aparente.  O que há por trás daquilo que vemos? O escondido e o aparente.  Acalento a parede com um cinza claro. Breve pausa em cor.  Os galhos descansam na paisagem.   Se eu plantar o passado será que nasce memória?  Haverá algo mais que sombras? Bosque das memórias.  Universo peculiar das coisas mortas.   Há quem passe a vida a cultivar o passado.  Será a memória um pensamento? Será uma sensação? Um movimento? Respostas improváveis.
Valéria Scornaienchi
1. DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas - São Paulo: Editora 34, 2017 (1a Edição); p.112.

 
 
 

Que tempo é esse? De recolher? De florescer? De escolher? De colecionar?
Sentada no meu ateliê trago ao redor cadernos. Cadernos de desenho, escritos, pensamentos. Cadernos de artista. Folheando e observando os desenhos eu percebo há quanto tempo a natureza está presente nos meus desenhos. Ora poética, ora real, ora fantasia, ora pensamento. Passo então a separar os desenhos. Ah, tempo desmedido! Sem começo nem fim.
A natureza sempre me atravessa. Dos jardins da minha casa, aos lugares que me sinto mais em mim. A natureza está lá. Viva. Ela está dentro e fora.
Me lembrei das plantas do jardim da minha casa. Tinha coqueiro, tinha primavera, tinha azaleias, e outras plantas de folhas misturadas com uma pequena horta de cenouras.
Será que é desse lugar que vem a arte?
Nesse momento o tempo me parece não existir. Não assim como a gente conhece. Será que a gente conhece?
Meus projetos artísticos buscam trazer perguntas. Perguntas que permitem reflexões.  Eu apresento desenhos, pinturas, instalações, fotografias, livros de artista e nunca consigo de fato responder as perguntas. Será que a gente consegue responder as perguntas? Até acho que não quero de fato responder, apenas criar novas.
Afinal, que tempo é esse? Tempo de criação? Tempo/processo?
Tempo presente?
Ah, tempo desmedido!
Valéria Scornaienchi

 

 
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